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Juros reais no Brasil: Selic menos inflação e a curva do IPCA+

Publicado: Atualizado: Por: Komesu, D.K.

Fachada do edifício do Ministério da Fazenda, Bloco P, na Esplanada dos Ministérios em Brasília, com letreiro dourado e janelas envidraçadas Foto: Pedro França/Agência Senado (CC BY 2.0)
Bloco P da Esplanada dos Ministérios, sede do Ministério da Fazenda e do Tesouro Nacional, emissor dos títulos Tesouro IPCA+ que servem de referência para o juro real no Brasil.

Com a Selic em 13,75% e o IPCA em 4,58% em 12 meses, o juro real brasileiro está acima de 9% desde novembro de 2025. O ensaio calcula o juro real ex-post e ex-ante, compara com as taxas das NTN-B no Tesouro Direto, que caíram após o primeiro turno, e discute a inflação implícita na curva.

Em 16 de setembro de 2026, na sua 281ª reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano. Foi o quinto corte consecutivo de um ciclo iniciado em março, depois de oito meses com a taxa parada em 15,00%: 14,75% em 18 de março, 14,50% em 29 de abril, 14,25% em 17 de junho, 14,00% em 5 de agosto e 13,75% em setembro. Na série histórica da meta Selic (SGS 432), a nova taxa aparece a partir de 17 de setembro, primeiro dia de vigência.

Cinco cortes não tornaram a política monetária frouxa. O IPCA acumulado em 12 meses fechou setembro em 4,58% (SGS 13522), acima do teto de 4,50% do intervalo de tolerância da meta de 3%. Descontada essa inflação, a Selic acumulada nos últimos 12 meses rendeu 9,46% de juro real. Contra a inflação que o mercado espera para os próximos 12 meses, o juro real ex-ante é de 8,84%. Já a curva do Tesouro IPCA+, onde o próprio mercado fixa o preço do juro real de longo prazo, paga entre 6,7% e 6,8% ao ano em todos os vencimentos de 2029 a 2060.

13,75
% a.a.
Meta Selic (decisão do Copom de 16/09/2026)
20/10/2026
4,58
%
IPCA acumulado em 12 meses
01/09/2026

Este ensaio explica essa diferença de dois pontos percentuais entre o juro real de curto e o de longo prazo. Mostra como calcular corretamente a taxa de juros real, o que ela pagou de fato (ex-post), o que se espera que pague (ex-ante) e o que a estrutura a termo das NTN-B e a inflação implícita dizem sobre os próximos anos. A data importa. A próxima reunião do Copom acontece em 3 e 4 de novembro, e as taxas da curva de juros reais caíram até 0,7 ponto percentual em um único pregão depois do primeiro turno da eleição presidencial de 4 de outubro.

O que é juro real e por que a subtração simples engana

Juro real é o ganho de poder de compra de uma aplicação: quanto a taxa nominal rende acima da inflação do mesmo período. A definição formal vem da equação de Fisher, que relaciona a taxa nominal \(i\), a taxa real \(r\) e a inflação \(\pi\):

\[ 1 + i = (1 + r)(1 + \pi) \quad \Longleftrightarrow \quad r = \frac{1 + i}{1 + \pi} - 1 \]

A versão escolar, \(r \approx i - \pi\), só funciona quando taxas e inflação são baixas. Com juros de dois dígitos, o erro deixa de ser desprezível. Com a meta Selic de 13,75% e a inflação esperada de 4,51%, a subtração dá 9,24%, e a equação de Fisher dá 8,84%. A diferença de 0,40 ponto percentual é o termo cruzado \(r \cdot \pi\), que a aproximação ignora.

A segunda distinção é temporal. Há duas maneiras de medir o juro real:

  • Juro real ex-post (realizado): compara a taxa nominal efetivamente paga em um período passado com a inflação efetivamente observada no mesmo período. Mede o que o aplicador ganhou.
  • Juro real ex-ante (esperado): compara a taxa nominal contratada hoje com a inflação esperada para o prazo da aplicação. É a medida relevante para a política monetária, porque o grau de aperto que famílias e empresas sentem ao decidir consumir, investir ou tomar crédito depende dela.

Formalmente, para uma janela de 12 meses terminada no mês \(t\), com \(s_{t}\) a Selic acumulada no mês e \(\pi_{t}\) a variação mensal do IPCA:

\[ r^{\text{ex-post}}_{t} = \frac{\prod_{k=0}^{11} \left(1 + s_{t-k}\right)}{\prod_{k=0}^{11} \left(1 + \pi_{t-k}\right)} - 1 \]
\[ r^{\text{ex-ante}}_{t} = \frac{1 + i_{t}}{1 + \mathbb{E}_{t}\left[\pi_{t,t+12}\right]} - 1 \]

onde \(i_{t}\) é a taxa nominal anual vigente e \(\mathbb{E}_{t}[\pi_{t,t+12}]\) é a inflação esperada para os 12 meses seguintes. As duas medidas podem divergir bastante. Um choque inflacionário inesperado derruba o juro ex-post sem que o ex-ante tenha mudado, como aconteceu em 2021.

Juro real ex-post: o que a Selic pagou acima da inflação

De outubro de 2025 a setembro de 2026, a Selic acumulou 14,47% (composição das taxas mensais da série SGS 4390), e o IPCA acumulou 4,58%. O juro real ex-post foi de 9,46% em 12 meses. É um dos patamares mais altos das duas últimas décadas.

Gráfico de linha do juro real ex-post em 12 meses no Brasil de 2002 a 2026, com pico de 14,4% em março de 2004, mínimo de menos 6,6% em outubro de 2021 e 9,5% em setembro de 2026
Figura 1: Juro real ex-post em 12 meses, calculado pela equação de Fisher com a Selic acumulada no mês e o IPCA mensal, de dezembro de 2002 a setembro de 2026.Fonte: BCB/SGS (séries 4390 e 433). Elaboração: Quantilica.

A série reconstruída mês a mês desde dezembro de 2002 (Figura 1) mostra três regimes:

  • 2003 a 2007, juro real de dois dígitos: o pico foi de 14,4% em março de 2004. Entre junho de 2005 e junho de 2007, a medida ficou acima de 9% por 25 meses seguidos.
  • 2010 a 2019, convergência para um patamar intermediário: a média do juro real ex-post na década foi de 4,0%. Picos isolados acima de 9% só ocorreram em 2017, por cinco meses, e em 2023, por três.
  • 2020 a 2022, juro real negativo: com a Selic em 2% e a inflação pós-pandemia em alta, o juro real ex-post ficou abaixo de zero por 22 meses consecutivos, de outubro de 2020 a julho de 2022. O mínimo foi de −6,6% em outubro de 2021.

O ciclo atual se destaca pela persistência. O juro real ex-post está acima de 9% desde novembro de 2025, há 11 meses consecutivos, a sequência mais longa desde 2005–2007. Em fevereiro de 2026 chegou a 10,3%, o maior valor desde abril de 2007 [1]

. O corte de setembro reduziu a taxa nominal, mas a aceleração do IPCA em setembro (0,82% no mês, depois de deflação de 0,32% em agosto) também pesou na queda do indicador para 9,46%.

Selic (acumulada no mês, anualizada) e IPCA acumulado em 12 meses

2 séries

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A distância entre as duas linhas do gráfico acima é a forma visual do juro real. Ela foi negativa em 2021 e voltou a se alargar a partir de 2023. Em 2026, com a Selic mensal anualizada em 13,65% em outubro (SGS 4189) e o IPCA perto de 4,6%, a distância continua perto da máxima do período.

Juro real ex-ante: Selic contra a inflação esperada

Pela meta Selic de 13,75% e pela mediana do Boletim Focus para o IPCA dos próximos 12 meses (4,51%, série suavizada, coleta de 16 de outubro de 2026), o juro real ex-ante é de 8,84% ao ano. Com a Selic efetiva (13,65% em 19 de outubro, SGS 1178) no lugar da meta, o resultado é 8,74%.

Metodologia: a Selic corrente contra o swap de 360 dias

A convenção de mercado calcula o juro real ex-ante com a taxa do swap DI-pré de 360 dias, e não com a Selic corrente, porque o swap já incorpora os cortes esperados ao longo do ano. Na falta desse dado, uma aproximação pública é a taxa do Tesouro Prefixado com vencimento em janeiro de 2028, a cerca de 1,2 ano: 12,77% ao ano na taxa de compra de 15 de outubro de 2026. Deflacionada pela mesma expectativa do Focus, ela indica um juro real ex-ante de mercado de 7,90%. A diferença de quase um ponto entre 8,84% e 7,90% corresponde aos cortes de juros que o mercado já espera para os próximos 12 meses.

O Focus de 16 de outubro mostra a trajetória que os analistas esperam:

Indicador (mediana Focus, 16/10/2026) 2026 2027 2028 2029
Selic no fim do ano (% a.a.) 13,25 12,00 10,50 10,00
IPCA no ano (%) 5,22 4,32 3,75 3,50
Juro real ex-ante implícito (Selic do fim do ano contra o IPCA do ano seguinte, %) 8,56 7,95 6,76 6,28

A última linha é uma construção da Quantilica, não uma projeção do Focus: aplica a equação de Fisher à Selic esperada para dezembro de cada ano e à inflação esperada para o ano seguinte (para 2029, a mediana do IPCA de 2030, também de 3,50%). Por reunião, a mediana do Focus prevê Selic de 13,50% após o encontro de novembro e de 13,25% após o de dezembro. A expectativa, portanto, é de cortes de 0,25 ponto em cada uma das duas reuniões restantes de 2026.

Pela própria leitura do mercado, o juro real ex-ante cairia de cerca de 8,8% hoje para algo entre 6% e 7% no fim da década. Mesmo nesse caso, ficaria acima da média de 4,0% observada entre 2010 e 2019.

Gráfico de barras horizontais comparando juro real ex-post de 9,46%, ex-ante pela Selic de 8,84%, ex-ante de mercado de 7,90% e taxas de 6,73% a 6,82% dos títulos Tesouro IPCA+
Figura 2: Medidas de juro real no Brasil: ex-post (Selic acumulada contra IPCA), ex-ante pela meta Selic, ex-ante pelo prefixado de 1,2 ano e taxas reais dos títulos Tesouro IPCA+. Focus de 16/10/2026; taxas de compra do Tesouro Direto de 15/10/2026.Fontes: BCB (SGS e Focus) e Tesouro Direto. Elaboração: Quantilica.

A curva do IPCA+: o juro real que o Tesouro paga

Em 15 de outubro de 2026 (último pregão disponível na base do Tesouro Direto no momento desta apuração), as NTN-B, ou Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais, ofereciam taxas reais de compra entre 6,71% e 6,83% ao ano, do vencimento de 2030 ao de 2060. A curva de juros reais está praticamente plana.

Curva de juros reais: Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais (NTN-B) Curva a Termo

O retrato atual esconde um movimento recente de grande amplitude. A tabela compara as taxas de compra em três datas: o pico do ano para o vértice de 2035 (3 de julho), o último pregão antes do primeiro turno da eleição presidencial (2 de outubro) e o primeiro pregão depois dele (5 de outubro).

Título (taxa de compra, % a.a. + IPCA) 03/07/2026 16/09/2026 02/10/2026 05/10/2026 15/10/2026
Tesouro IPCA+ 2029 (principal) 8,57 7,47 7,39 6,84 6,77
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2030 8,61 7,60 7,59 7,06 6,79
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2035 8,24 7,59 7,54 6,87 6,82
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2045 7,73 7,35 7,18 6,56 6,75
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2060 7,57 7,21 7,08 6,39 6,73

A tabela mostra três fatos:

  • A curva era invertida e se aplainou. Em julho, o juro real curto (2030: 8,61%) superava o longo (2060: 7,57%) em mais de um ponto. A inversão refletia uma Selic muito acima do nível que o mercado considerava sustentável no longo prazo. Com os cortes e a expectativa de novos cortes, a ponta curta cedeu mais que a longa.
  • O primeiro turno moveu a curva inteira. Entre 2 e 5 de outubro, as taxas caíram de 0,53 a 0,70 ponto percentual em todos os vencimentos. Os prefixados também recuaram: na interpolação da curva nominal do Tesouro Direto, o vértice de maio de 2029 passou de 13,93% para 12,79%. Esse tipo de deslocamento paralelo costuma refletir mudança no prêmio de risco, e não nas expectativas para a Selic: a mediana do Focus para a taxa no fim de 2026 e de 2027 era a mesma em 2 e em 5 de outubro (13,50% e 12,00%).
  • Parte do alívio foi devolvida nos vencimentos longos. De 5 a 15 de outubro, o vértice de 2060 voltou de 6,39% para 6,73%, enquanto os curtos continuaram a cair. A curva voltou a ficar plana, com o segundo turno, em 25 de outubro, ainda por decidir.
Tesouro IPCA+ 2035 com Juros Semestrais (taxa de compra)
6,82% a.a.
Ref: 15/10/2026
Tesouro IPCA+ 2045 com Juros Semestrais (taxa de compra)
6,75% a.a.
Ref: 15/10/2026
Juro real das NTN-B 2035 e 2045 desde 2024 Taxa (% a.a.)

Visto em perspectiva, o nível ainda é alto. No início de 2024, a NTN-B 2035 pagava 5,35% acima do IPCA, e a máxima desde 2016 foi de 8,24%, em 3 de julho de 2026. O mínimo do mesmo período foi de 2,76%, em novembro de 2019. Para quem quer entender como essas taxas se convertem em preço e por que um título longo oscila tanto, o guia sobre como ler a curva de juros do Tesouro Direto e o de marcação a mercado detalham a mecânica.

Por que o juro real de mercado (6,8%) é menor que o ex-ante pela Selic (8,8%)

A hipótese das expectativas explica a maior parte da diferença. Um título real de prazo \(n\) deve pagar, aproximadamente, a média dos juros reais de curto prazo esperados ao longo da sua vida, mais um prêmio de prazo \(\theta\):

\[ r_{t}^{(n)} \approx \frac{1}{n} \sum_{j=0}^{n-1} \mathbb{E}_{t}\left[r_{t+j}\right] + \theta_{t}^{(n)} \]

Se o juro real de curto prazo começa perto de 8,8% e o Focus o leva para perto de 6,3% em 2029, a média ao longo de cinco ou dez anos fica naturalmente abaixo do nível corrente. É o que a NTN-B 2030 precifica.

A parte reveladora está nos vencimentos longos. Uma NTN-B 2060 a 6,73% significa que o mercado aceita travar, por 34 anos, um juro real perto de 6,7%. Pela equação acima, ou se espera que o juro real de curto prazo do Brasil fique nessa faixa por décadas, ou o investidor cobra um prêmio de prazo elevado para carregar risco soberano de longo prazo. Nos dois casos, a leitura é a mesma: o mercado não precifica um retorno ao juro real médio de 4% dos anos 2010. O efeito da trajetória da dívida pública sobre esse prêmio é discutido em a aritmética da dívida pública em 2026. O risco fiscal e a meta de 2026 são analisados no artigo sobre o resultado primário.

Inflação implícita: o que o mercado precifica

A inflação implícita é a inflação que iguala o retorno de um título prefixado ao de um título indexado ao IPCA de mesmo prazo. É a taxa de equilíbrio (breakeven) acima da qual o Tesouro IPCA+ rende mais que o Prefixado:

\[ \pi^{\text{impl}}_{(n)} = \frac{1 + y^{\text{pré}}_{(n)}}{1 + y^{\text{real}}_{(n)}} - 1 \]

em que \(y^{\text{pré}}_{(n)}\) e \(y^{\text{real}}_{(n)}\) são as taxas prefixada e real interpoladas para o mesmo prazo \(n\). As curvas ajustadas por spline às taxas de compra do Tesouro Direto de 15 de outubro de 2026 dão:

Prazo Taxa prefixada Taxa real (IPCA+) Inflação implícita Inflação implícita em 02/10/2026
mai/2029 (2,55 anos) 12,65% 6,77% 5,50% 6,09%
ago/2030 (3,8 anos) 12,72% 6,78% 5,57% 6,10%
jan/2032 (5,17 anos) 12,87% 6,79% 5,69% 6,11%

A inflação implícita caiu entre 0,4 e 0,6 ponto depois do primeiro turno, mas continua muito acima das expectativas declaradas. A mediana do Focus é de 4,32% para 2027, 3,75% para 2028 e 3,50% para 2029. O próprio Copom, no comunicado de setembro, projetou 3,2% para o primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante da política monetária. A diferença de 1,5 a 2 pontos entre a inflação implícita e a esperada não é uma previsão de inflação. É, em boa medida, um prêmio de risco inflacionário: o preço que o investidor de prefixado cobra para se proteger de cenários em que a inflação foge da meta. Nesse prêmio entram as incertezas fiscais e eleitorais. Prêmios de liquidez e diferenças de convexidade entre os títulos também contaminam a medida, e a decomposição exata exige modelos que fogem ao escopo deste ensaio.

A série completa da inflação implícita, com histórico e escolha de método, está no painel de inflação implícita do Sloth. As curvas nominal e real ficam em curvas de juros.

O juro real não é só um conceito de política monetária. Desde a Lei 14.905/2024, ele corrige dívidas civis. A lei reescreveu o artigo 406 do Código Civil: quando o contrato não fixa os juros de mora, aplica-se a taxa legal, que "corresponderá à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic), deduzido o índice de atualização monetária" (o IPCA). Se o resultado for negativo, vale zero. A metodologia é definida pelo Conselho Monetário Nacional e divulgada pelo Banco Central.

Na prática, a taxa legal é um juro real mensal. Para outubro de 2026, o Banco Central publicou 0,379% ao mês (SGS 29543), equivalente a 4,64% ao ano. O valor mensal é volátil porque acompanha as oscilações do IPCA. Em setembro, a taxa legal foi de 1,499%, e em agosto, de 1,155%. Em 12 meses (novembro de 2025 a outubro de 2026), acumulou 9,57%, praticamente o mesmo nível do juro real ex-post da Selic. Uma dívida judicial ou contratual corrigida pelo IPCA e pela taxa legal cresceu, nesse período, perto de 9,6% acima da inflação. O passo a passo da atualização está no guia de como corrigir um valor pela inflação.

Para o investidor, a comparação relevante é outra:

Cenários: para onde vai o juro real em 2027

A sensibilidade do juro real ex-ante às duas variáveis que o determinam é aritmética. A tabela abaixo aplica a equação de Fisher a três níveis de Selic (o atual, o esperado pelo Focus para dezembro de 2026 e o esperado para dezembro de 2027) e a três níveis de inflação esperada (3,75%, a mediana do Focus para 2028; 4,51%, a expectativa atual para 12 meses; e 5,22%, a mediana para 2026):

Selic (% a.a.) Inflação esperada de 3,75% Inflação esperada de 4,51% Inflação esperada de 5,22%
13,75 9,64% 8,84% 8,11%
13,25 9,16% 8,36% 7,63%
12,00 7,95% 7,16% 6,44%

A partir dela, três cenários:

  • Cenário base (trajetória do Focus): Selic de 13,25% no fim de 2026 e 12,00% no fim de 2027, com a inflação convergindo para 3,75% em 2028. O juro real ex-ante recua para perto de 8% ao longo de 2027, ainda bem acima da média histórica. A curva de NTN-B permanece na faixa de 6,5% a 7%, e a inflação implícita se aproxima lentamente das expectativas.
  • Cenário de estresse (desancoragem e prêmio fiscal): as expectativas de inflação continuam a subir. A mediana do Focus para 2026 passou de 4,9%, citada no comunicado do Copom de setembro, para 5,22% em 16 de outubro. Se a inflação esperada se aproximar de 5,2% e o Copom interromper o ciclo em 13,75%, o juro real ex-ante cai para 8,1% por perda de credibilidade, não por afrouxamento. Os vencimentos longos das NTN-B voltariam a abrir, no caminho da faixa de 7% a 7,5% observada antes de 5 de outubro, com perda de marcação a mercado para quem comprou agora. O segundo turno de 25 de outubro é o principal gatilho de curto prazo para esse prêmio.
  • Cenário otimista (convergência e compressão de prêmios): a inflação converge para a projeção do Copom (3,2% no primeiro trimestre de 2028), a inflação implícita se aproxima do Focus e o Banco Central ganha espaço para levar a Selic a 12% em 2027 sem perder a âncora. Com inflação esperada de 3,75%, o juro real ex-ante ficaria perto de 7,95%. A curva longa poderia testar níveis abaixo de 6,5%, como os registrados em 5 de outubro.

Em nenhum dos três cenários o juro real brasileiro volta, no horizonte de 2027, aos níveis de 4% da década passada. O que muda entre eles é a composição: se o juro real alto reflete uma política monetária que ainda aperta por escolha ou um prêmio de risco que o país paga por falta de confiança.

Para analistas e pesquisadores interessados no aprofundamento empírico, os painéis e séries históricas completas estão disponíveis para consulta e visualização na plataforma Quantilica: a meta Selic, a Selic acumulada no mês, o IPCA em 12 meses, a taxa legal e a NTN-B 2035. Para o efeito das decisões do Copom sobre os títulos públicos, veja também o impacto do último Copom na curva de juros. Para baixar essas séries por código, consulte o guia de APIs de dados econômicos em Python.

Perguntas Frequentes

Como calcular a taxa de juros real no Brasil?

Use a equação de Fisher: juro real = (1 + taxa nominal) / (1 + inflação) − 1. Com a meta Selic de 13,75% e a inflação esperada de 4,51% para 12 meses (Focus de 16/10/2026), o juro real é de 1,1375 / 1,0451 − 1 = 8,84% ao ano. A subtração simples (13,75 − 4,51 = 9,24%) superestima o resultado em 0,40 ponto.

Qual a diferença entre juro real ex-ante e ex-post?

O juro real ex-post usa a inflação já observada e mede o ganho real efetivo: 9,46% nos 12 meses até setembro de 2026, com Selic acumulada de 14,47% e IPCA de 4,58%. O ex-ante usa a inflação esperada e mede o aperto monetário corrente: 8,84% pela meta Selic contra o Focus. O Banco Central olha o ex-ante para calibrar a política monetária.

Qual é o juro real pago pelo Tesouro IPCA+ hoje?

Na taxa de compra de 15 de outubro de 2026, os títulos Tesouro IPCA+ pagavam entre 6,71% e 6,84% ao ano acima do IPCA, do vencimento de 2029 ao de 2060. Por exemplo, 6,82% no IPCA+ 2035 com juros semestrais e 6,75% no 2045. Antes do primeiro turno da eleição (2 de outubro), as NTN-B pagavam entre 7,08% e 7,59%.

O que é inflação implícita na curva de juros?

É a inflação que iguala o retorno de um título prefixado ao de um título IPCA+ de mesmo prazo, calculada por (1 + taxa prefixada) / (1 + taxa real) − 1. Em 15 de outubro de 2026, ela estava entre 5,50% e 5,69% para prazos de 2,5 a 5 anos, bem acima das expectativas do Focus (3,50% a 4,32% para 2027–2029). A diferença incorpora prêmio de risco inflacionário, não apenas a inflação esperada.

Referências

  1. FISHER, I. The Theory of Interest. New York: Macmillan, 1930.
  2. CAMPBELL, J. Y.; SHILLER, R. J. Yield spreads and interest rate movements: a bird's eye view. Review of Economic Studies, v. 58, n. 3, p. 495–514, 1991.
  3. SÖDERLIND, P.; SVENSSON, L. E. O. New techniques to extract market expectations from financial instruments. Journal of Monetary Economics, v. 40, n. 2, p. 383–429, 1997.
  4. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Comunicado da 281ª reunião do Copom. Brasília, 16 set. 2026. Disponível em: bcb.gov.br/controleinflacao/copom.
  5. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Histórico das taxas de juros. Disponível em: bcb.gov.br/controleinflacao/historicotaxasjuros.
  6. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Focus: Relatório de Mercado e Sistema de Expectativas de Mercado, coleta de 16 out. 2026. Disponível em: bcb.gov.br/publicacoes/focus.
  7. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Meta para a inflação. Disponível em: bcb.gov.br/controleinflacao/metainflacao.
  8. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS): séries 432, 433, 1178, 4189, 4390, 13522 e 29543.
  9. BRASIL. Lei nº 14.905, de 28 de junho de 2024. Altera o Código Civil para dispor sobre atualização monetária e juros. Disponível em: planalto.gov.br.
  10. TESOURO NACIONAL. Tesouro Direto: rendimento dos títulos (preços e taxas de compra). Disponível em: tesourodireto.com.br.